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Anatomia De Uma Tragédia (23/06/2018)

Marcelo Oliveira e Paulo Angioni, afinal, são bons nomes para a realidade do Fluminense, que é dramática, falimentar e anômica. Angioni sabe trabalhar com grupos de jogadores, é o que se chama de um “vaselina”, mas do bem, “cisca para dentro”, como se diz na gíria política para os agregadores.

Formado também em psicologia, Angioni pode ser um bom colchão protetor para o Marcelo Oliveira, que não tem o prestígio pessoal, político e midiático de Abel Braga. Mas acho que tem bagagem e visão para ajeitar melhor o time, que estava mal treinado pelo Abelão.

Para quem ficou uma semana lendo e ouvindo especulações sobre Luxemburgo, Guto Ferreira, Argel Fucks, é um grande alívio. Pelo menos, não vamos passar ridículo nessa área.

Mas nada disso terá efeito se o clube continuar sem pagar salários e nem cumprir promessas feitas ao elenco. O câncer do Fluminense hoje é a gestão inepta, nada confiável, que mente publicamente e se omite em questões institucionais muito relevantes.

Isso me leva à entrevista do presidente Pedro Abad ao GloboEsporte.com. Mais um pacote de promessas mentirosas e vazias. Promete que vai apresentar projeto de estádio, que vai deixar um clube melhor para o próximo presidente, que está tocando o clube “sem atrasos”. Que está “saneando” o clube – já ouvimos isso antes!

Reclama da torcida, que não enche o Maracanã. Pois eu digo que não haverá mais apoio da torcida e nem de qualquer grupo político (de resto, todos grupos oportunistas e irresponsáveis). Abad não tem mais condições de liderar nenhum processo de revitalização do Fluminense. Não tem mais credibilidade.

Legitimidade é diferente de legalidade. O legal é o que está no papel, na lei, no estatuto. O legítimo é o que é aceito pela sociedade, pela associação, pela comunidade, mesmo que contrarie a fria lei do papel. A lei nem sempre atende aos anseios da sociedade ou da comunidade.

Abad é o presidente legal, mas perdeu a legitimidade, não é mais aceito pela comunidade tricolor, pela torcida, por ninguém que ame ou se preocupe com o Flu.

Isso nada tem a ver com caráter, com honestidade. Continuo achando que ele é um homem honesto, bem-intencionado. Mas é absurdamente incapaz, e está levando o Fluminense à destruição institucional e financeira.

E, como autodefesa, mente. A entrevista ao Globo está recheada de mentiras defensivas e de platitudes. Claro que ele sabia que Abel Braga estava prestes a pular do barco. Mas nega. Insiste em que vai trazer jogadores. Como, se não consegue pagar os salários do elenco atual?

Afirma que tem o apoio do Grupo Base, empresários que se reuniram há cerca de dois anos para eleger Pedro Antônio presidente – o que foi impossibilitado pelo estatuto, por ele não ter, na ocasião, dois anos como sócio. Abad não tem esse apoio, pelo menos não é o que se vê.

Insiste na versão de que “não sabia” que Pinóquio Siemsen estava cometendo barbaridades, mesmo como presidente do Conselho Fiscal. E a maior das platitudes, conta que Peter foi bem até a saída da Unimed, em 2014. Ora, em 2013 o Flu foi rebaixado em campo! E, claro, antes disso a Unimed pagava todas as contas!

As versões sobre Fernando Simone e Marcelo Teixeira também são risíveis, quase inacreditáveis. Diz que Simone lhe deu informações e diagnósticos precisos quando estava no Boavista, e por isso o recontratou. Meu deus!

Simone largou um emprego em uma multinacional para ser um administrador de Xerém, na gestão Pinóquio Siemsen. Foi bem, reformou as instalações. Promovido a gerente de futebol, fracassou redondamente e acabou demitido. Ficou sem o emprego na empresa privada e perdeu também o que tinha no Flu.

Foi reconduzido e agora promovido a CEO (!) certamente por ser um amigo que estava em dificuldades no Boavista. Não por ser um excepcional talento político ou administrativo. Marcelo Teixeira também tem estabilidade no cargo pelas relações pessoais com o presidente.

Acho que Abad vai rebaixar o Fluminense e levar o clube a uma situação parecida com a do fim dos anos 90. Só que, desta vez, o resgate poderá ser impossível.

Mas não confio no processo de sucessão, em caso de impeachment ou renúncia. Não vejo lideranças capazes de reerguer o clube. Não existe mais a sinergia clube/torcida/grandes tricolores, como em 1999. A dívida atual atingiu níveis superiores ao patrimônio do clube. A bagunça é total.

Não temos mais Francisco Horta, David Fischel, Manoel Schwartz, Luiz Antônio Gonçalves, Carlos Alberto Parreira, nem mesmo José de Souza, que era chamado pelos tricolores de “Zé das Couves”, pela condição de empresário do setor de abastecimento.

Acumulamos inimigos na mídia. Abel Braga tentou ser o Parreira da vez, mas lhe faltaram dirigentes à altura. O futebol mudou, atingiu outro patamar profissional. E a nossa realidade é hoje um grupo de jovens arrogantes de classe média, que se consideram donos da verdade e não têm qualquer inserção no mercado.

O clube fechou 2017 com dívida de 631 milhões de reais, calotes no governo, calotes trabalhistas, salários atrasados, juros bancários escorchantes, sem receitas. Pelo jeito, vamos pagar salários com pedidos sucessivos de empréstimos – o caminho para a ruína. É mentira que o próximo presidente vai encontrar um Fluminense melhor.

Gostaria muito que fosse verdade, e que eu fosse obrigado a pedir desculpas públicas. Mas não acredito.

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