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Os Caminhos (nem Sempre) Tortuosos Do Campeonato Brasileiro (06/05/2018)

Vocês sabiam que, nos últimos três anos, pelo menos, Cruzeiro, Corinthians, Flamengo e São Paulo foram os clubes com o caminho mais fácil nas cinco primeiras rodadas do campeonato brasileiro? Sabia que o trajeto mais difícil nesse período foi o do Botafogo?

Não há nenhuma acusação, nem achismo, nem opinião e nem qualquer base abstrata para essa afirmação. Trata-se, simplesmente, de análise estritamente técnica e comprovável das tabelas.

Já há um bom tempo, eu pensava em fazer esse levantamento, mas é um trabalho árduo e que requer tempo. Um amigo cansava de reclamar, já há alguns anos, das tabelas do campeonato brasileiro, dizendo que elas beneficiam alguns clubes nas primeiras rodadas em detrimento de outros.

Sempre ouvi essas teorias com desconfiança. Achava que era o emocional do torcedor falando mais alto. Ora, a grande vantagem dos pontos corridos é justamente o fato de que todos jogam contra todos, em casa e fora de casa. Então não importa a sequência dos jogos, certo? Meu amigo argumentava que não e seus argumentos eram bastante factíveis. Passei a não ter mais tanta certeza também. Um bom início de campeonato pode ser determinante para o restante da competição. Uma boa arrrancada pode empolgar jogadores e torcida e engrenar o time para a sequência. Além disso, vários clubes estão disputando as primeiras fases da Libertadores, Sul Americana e Copa do Brasil, com algumas viagens longas, alguns jogos em cidades altas, campos em mau estado, times violentos... jogos mais tranquilos no comecinho do Brasileirão, que permitam até poupar um ou outro jogador, não parece nada mau, não é mesmo?

Ainda assim, não queria me dar a esse trabalho. Comecei a pensar mais seriamente nisso ao ver, neste campeonato de 2018, o Fluminense, mergulhado numa crise grave, encarar logo de saída o Corinthians, atual campeão, dentro de Itaquera, seguido de Cruzeiro e São Paulo, vendo, ao mesmo tempo, o Flamengo passear contra Vitória, América-MG e Ceará. Pareceu-me injusto.

Pois bem, rendi-me às reclamações dos amigos, usei boa parte do feriado da semana passada e do último sábado para colocar tudo no papel e tirar a prova. Como já dito, uma análise rigorosamente técnica, baseada unicamente em fatos. Fiz os cálculos usando pura e simplesmente a colocação do campeonato do ano imediatamente anterior. Tomei como base as cinco primeiras rodadas dos três últimos anos. Por motivos óbvios, avaliei apenas os 13 clubes que disputaram a série A em todos eles. Seria impossível comparar pesos de jogos de divisões diferentes. Distorceria o resultado. Assim, dos 12 clubes considerados grandes, do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, dois ficaram de fora: o Vasco (série B em 2016) e o Internacional (série B em 2017). Aos outros dez se juntaram Atlético-PR, Chapecoense e Sport, que têm permanecido na elite há alguns anos e, portanto, completam o grupo dos 13 clubes que disputaram a série A em todo o período pesquisado.

Ao todo, 27 clubes disputaram a série A ao menos uma vez, de 2016 para cá. A cada um deles, atribuí pesos em função de sua colocação no ano imediatamente anterior. Pareceu-me justo o seguinte critério: o campeão da edição anterior entra com peso 20, o vice, 19, o terceiro 18 e assim por diante até o 16º, que fica com peso 5. Os promovidos da série B entram com 4 (o que subiu como campeão), 3, 2 e 1, respectivamente.

Exemplificando, no campeonato de 2016 o Corinthians (campeão de 2015), ficou com peso 20. No de 2017, o peso máximo foi para o Palmeiras, campeão de 2016. Neste ano, voltou a ser do Corinthians, campeão do ano passado. O Atlético-MG, vice de 2015, ganhou peso 19 na análise de 2016. O mesmo aconteceu com Santos em 2017 e Palmeiras em 2018. Dobrei os pesos dos adversários nos jogos fora de casa.

Vou usar o exemplo de um único clube em um único certame, caso ainda não esteja claro. Peguemos o Grêmio em 2016, que identifiquei como o pior caminho de todos. O Grêmio estreou em Itaquera contra o Corinthians. Corinthians, campeão do ano anterior, tinha peso 20. Na casa dele, o peso foi duplicado: 40. Na segunda rodada o Grêmio jogou em casa contra o Flamengo. O Flamengo tinha peso 9, pois em 2015 ficou apenas em 12º lugar. Já temos 40 + 9. Na terceira rodada, o Grêmio foi a Belo Horizonte enfrentar o Atlético-MG, vice-campeão de 2015. Peso 19 duplicado, ou seja, 38. Temos 40, 9 e 38. Veio a quarta rodada e o Grêmio recebeu o Coritiba. O Coxa tinha ficado em 15º lugar na edição anterior. Peso 6. Para finalizar, na quinta rodada o tricolor gaúcho foi a São Paulo para enfrentar o Palmeiras. Como o clube paulista tinha sido apenas o 9º colocado em 2016, teve peso 12. Duplicado, nesse caso, por jogar em casa: 24. Portanto, o “peso” do Grêmio na competição de 2016 foi de 40 + 9 + 38 + 6 + 24. Total 117. Para efeito de comparação, no mesmo ano o Cruzeiro somou 32 nos cinco primeiros confrontos. O total do Fluminense foi 71.

Definido o critério, mergulhei nas tabelas dos três anos, na colocação dos certames de 2015 a 2017, e trabalhei numa planilha Excel. Encontrei algumas coisas bem interessantes:

Cruzeiro, Corinthians, Flamengo e São Paulo foram os clubes que tiveram o caminho mais fácil, no somatório geral, nas 5 primeiras rodadas, tanto se considerarmos os últimos três anos quanto se quisermos manter apenas dois. No total dos três anos (2016, 2017 e 2018), o Cruzeiro ficou com o menor grau de dificuldade, 161, seguido de São Paulo, 179, Corinthians, 181 e Flamengo 212.

Mantendo apenas os dois últimos anos (2017 e 2018), quem se deu melhor foi o Corinthians, com 105, mas os quatro “top 4” permaneceram os mesmos: após o Timão vieram São Paulo, 121, Cruzeiro 129 e Flamengo 132.

O Botafogo tem motivo para se lamentar. Foi o clube que enfrentou o maior peso somado nas duas abrangências: 286 (três anos) e 199 (dois anos).

O Fluminense, que ficou em meio de tabela no geral, é o terceiro com carga mais pesada nos dois últimos anos: 173. A segunda mais pesada de 2018: 96.

Chamou minha atenção a situação do Palmeiras e do Alético-MG, que acompanham o Botafogo no, digamos, Z4, nas duas abrangências, dois ou três anos.

Já comentamos que o caminho mais fácil de 2016 foi o do Cruzeiro, com peso 32, e que o mais difícil ficou com o Grêmio, 117. Já em 2017, o Corinthians, que viria a ser o campeão, brincou nas 5 primeiras rodadas, com peso 51. O pior foi o Botafogo, com 112. Neste 2018, quem teve mais sorte de encarar um caminho tranquilo nas 5 primeiras rodadas foi o Flamengo, com peso 47. O pior foi o Palmeiras com 98. O Flu vem logo em seguida, com 96.

As duas sequências mais leves entre todas nesses três anos pesquisados, foi a do Cruzeiro de 2016 (32) seguida da do Flamengo neste 2018 (47).

As duas piores foram a já citado do Grêmio em 2016 (117) seguida da do Botafogo em 2017 (112).

O Corinthians foi o único dos 13 clubes que estreou em casa nos três anos. É possível que haja algum critério que dê ao campeão da edição anterior esse privilégio, não tenho certeza. O Corinthians foi campeão em 2015 e 2017. Por outro lado, eu não saberia explicar o motivo de Chapecoense e Sport terem feito o primeiro jogo fora de casa nas três edições. Foram os dois únicos casos.

O ano mais “leve” do Botafogo teve peso 87. Ainda assim, ele supera o mais “pesado” do Flamengo, que foi o 85 de 2017.

Ranges de “pesos” dos times do Rio:
Flamengo – 47 a 85
Botafogo – 87 a 112
Fluminense - 71 a 98.

Vamos aos totais:

Abrangência de três anos (2016, 2017 e 2018):
Cruzeiro - 161
São Paulo - 179
Corinthians - 181
Flamengo - 212
Sport - 213
Atlético-PR - 232
Chapecoense - 235
Fluminense - 244
Santos - 254
Atlético MG - 255
Palmeiras - 273
Grêmio - 284
Botafogo - 286

Abrangência de dois anos (2017 e 2018):
Corinthians - 105
São Paulo - 121
Cruzeiro - 129
Flamengo - 132
Sport Recife - 133
Santos - 144
Atlético-PR - 156
Grêmio - 167
Chapecoense - 169
Palmeiras - 171
Fluminense - 173
Atlético MG - 189
Botafogo – 199

Este estudo foi fruto apenas de uma curiosidade minha, com intenção exclusiva de mostrar fatos, sem qualquer tipo de acusação. A planilha com todos os jogos e pesos é muito grande para ser publicada aqui. Mas ela está comigo e terei prazer em disponibilizá-la a quem se interessar.

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