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A Responsabilidade Histórica De Destruir O Fluminense (18/01/2018)

Ao longo dos 60 e poucos anos em que acompanho futebol, poucas vezes vi um processo de autodestruição de um clube de futebol tão avassalador e previsível como este do Fluminense. Os pequenos clubes não se autodestruíram; na verdade foram engolidos pela profissionalização e pelas mudanças impostas pela realidade.

O caso do América foi de sabotagem e vingança contra um presidente da CBF (e do América) que ousou desafiar o sistema. Giulite Coutinho assumiu a CBF com ideias diferentes e foi atropelado com o seu clube em 1987, quando foram criados a Copa União e o Clube dos 13.

Terceiro colocado no Brasileirão de 1986, com uma campanha espetacular, o Ameriquinha foi relegado ao tal “Grupo Amarelo” no ano seguinte, ou seja, à segundona, e em seu lugar foi escalado o Botafogo, que teria sido rebaixado se as regras continuassem as mesmas. O Bangu murchou com a saída de Castor de Andrade.

De qualquer forma, não eram clubes com grande torcida, como o Fluminense. Todo mundo lamenta pelo América, e ponto final. O Bangu valia pelo folclore.

Autodestruição mesmo aconteceu com o Botafogo em 1979, sob a presidência do policial e torturador Charles Borer. Vendeu o velho estádio da Rua General Severiano e mudou o clube para Marechal Hermes (pelo menos em termos militares, uma promoção!), onde roubou dos associados um clubinho local de futebol, com apoio da prefeitura.

Salvou-se da extinção graças a um bicheiro, Emil Pinheiro, que injetou dinheiro pesado em jogadores e em árbitros. Depois, conseguiu apoios da Prefeitura do Rio. Mas nunca mais foi o mesmo dos anos 70, nem mesmo com o Engenhão. Perdeu sua alma.

Outro caso dramático de autodestruição foi o da Portuguesa-SP em 2013. A Lusinha paulista, simpática a todos, vendeu não o seu estádio ou seu patrimônio, mas a sua própria alma ao diabo. Vai ser difícil de se reconstruir, porque também não é um clube de grande torcida.

Casos clássicos também são os do Santa Cruz, que nos anos 70 chegou a ser um clube grande e com a maior torcida do Nordeste. E do Guarani, de Campinas.

O Fluminense esteve bem perto disso em 1996/97/98. Conseguiu sobreviver graças à união da torcida com grandes tricolores – e graças à Internet, que permitiu essa união e uma grande mobilização. E acima de tudo porque é um clube de massas, com uma torcida apaixonada (até quando?).

Não sei se hoje seria mais uma vez possível salvar o Fluminense. O quadro é abandono e descaso total com o clube, negligência, anomia, salários tão atrasados quanto em 1996, inchaço administrativo, prejuízos absurdos com saídas de jogadores e derrotas à revelia em tribunal, ausência de receitas publicitárias.

Deveriam pagar pelos incalculáveis prejuízos que estão causando ao clube com seus patrimônios pessoais. Aliás, isso está na Lei Pelé.

A turma que dirige o clube está deslumbrada com o poder e com a terminologia de manuais de administração, como “governança”, “CEO”, “ativos voláteis” e outras bobagens. Administram o Flu como se fosse a padaria da esquina, sem paixão, sem brilho nos olhos, como se fossem os verdadeiros e únicos donos do clube.

Para eles, o objetivo do clube é apenas vender jogadores cada vez mais mal formados em Xerém. Claro que venda de jogadores é parte fundamental do futebol brasileiro, que tem poucas receitas. Mas já não há mais ninguém para vender, e agora os jogadores saem de graça, por falta de salários.

Some-se a tudo isso a imensa má vontade da mídia, que não perde chance de desmoralizar o clube e afastar ainda mais possíveis investidores. Xerém, tão elogiada, vive hoje de fracassos em torneios sem formar bons jogadores.

Wellington Silva, ao que tudo indica, foi emprestado ao Inter em uma tentativa de recuperá-lo fisicamente, o que não conseguimos fazer.

E o dinheiro pela venda do Wendel? E a parte que caberia ao Flu pela venda do Diego Souza ao São Paulo? Negligência, descaso, omissão, apatia? E a ação na justiça canadense contra a Dryworld? Até agora, não temos notícias de que as dívidas com os jogadores foram quitadas.

No primeiro jogo do ano pelo Carioquinha, já tivemos Marcelo de Lima Henrique no apito, um jogo em horário absurdo e estádio idem, que o Roubinho não aceitou adiar, pelas razões que todos conhecemos.

O momento do Fluminense exige a união e o apoio de todos, principalmente os tais empresários que apoiaram Cacá Cardoso, além do tal Grupo Base. Ao longo da campanha eleitoral foram apresentados como homens do mercado, que ajudariam a atrair investidores e encontrar saídas para as finanças e a estrutura do clube. Cadê eles?

Sei que nada disso vai acontecer, mas seria importante uma reaproximação com Pedro Antônio e a busca por Alcides Antunes, por exemplo, o melhor vice-presidente de futebol desde 1985.

Sei o que dizem do Alcides Antunes e do Pedro Antônio, não gostam deles, mas sei também que estamos muito piores sem eles.

O estádio das Laranjeiras está abandonado, às traças, sem qualquer benefício para o Fluminense. Não acredito que um grupo de empresários não possa idealizar um plano para o local, seja a reconstrução do estádio para jogos, seja para qualquer outra coisa rentável, até mesmo como o tal shopping de que falava Pedro Abad na campanha.

O Santos, por exemplo, vai ampliar a Vila Belmiro, modernizá-la, aumentar a capacidade de público.

O que não pode acontecer é o estádio ser tratado como um elefante branco, uma ruína, com o clube à míngua de receitas. E o tal CEO, que nada apresentou até hoje, a não ser uma colcha de retalhos de patrocinadores na reta final do Brasileirão?

Quando haverá um plano para a conclusão do CT Pedro Antônio, que não tem eletricidade própria, não tem rua de acesso e nem hotelaria que sirva como concentração? Sequer um restaurante para os dias de treino em tempo integral.

Estão destruindo o Fluminense. Vejam a responsabilidade histórica que estão assumindo.

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