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1996, O Ano Que Não Acabou (04/01/2018)

Escrevo neste espaço há 17 anos, e pela primeira vez senti vontade de desistir, de telefonar para meus amigos Cláudio Fernandes e Júnior Cysne e pedir demissão. É possível que o Fluminense se recupere quando a economia do país e do Rio de Janeiro retomar o crescimento.

Mas o futuro imediato, pelo menos em 2018, é desalentador. Nosso clube deixou de ser razão para paixão e lazer e transformou-se em motivo de vergonha. Somos, mais uma vez, uma instituição caloteira, um clube vigarista, que não cumpre suas obrigações contratuais mais elementares, como pagamento de salários.

Não adianta atacar Gustavo Scarpa, chamá-lo de “ingrato”, “traidor”, porque ninguém trabalha de graça – e quem tem mercado, vai mesmo à luta. Em janeiro, completam-se cinco meses de direitos de imagem em atraso, três meses de salário em carteira, dois décimos-terceiros e duas férias caloteadas.

Vão argumentar também que todos os clubes estão em crise, atrasam salários e que a mídia persegue o Flu. É tudo verdade, mas ninguém chegou ao ponto em que chegamos, e em nenhum deles as explicações destroem tanto a imagem do clube quanto no nosso caso. Como deixaram a coisa chegar a este ponto?

Será que algum tricolor ainda acredita mesmo que houve proposta pelo Fred, ou todos já concluíram que era apenas uma cortina de fumaça para o desastre que se aproximava? Logo o Fred, que foi enxotado do clube!

Concordo que o ajuste era necessário há muito tempo. O diabo é a forma de se fazer e a maneira de se comunicar com a torcida. O clube vai ter agora que segurar a trolha de imensas ações trabalhistas, além da possibilidade concreta de perder o Scarpa de graça. Talvez outros jogadores sigam o caminho – pelo menos os que tiverem mercado.

Além de todo o desgaste do desencontro do clube com sua torcida, da desmoralização promovida pela mídia que se aproveita da crise, há também o desânimo dos jogadores, evidente nos jogos finais do Brasileirão.

Quando enfrentamos em 1986 a presidência de Fábio Sete Pragas do Egypto, o Fluminense ainda era um gigante nacional respeitado. Mas ali já se desenhava o que nos esperava à frente. A nossa tragédia é que há mais de 40 anos não temos dirigentes qualificados e à altura do clube.

Houve alguns momentos, como o ilusório Francisco Horta, o bom Sylvio Kelly dos Santos, o passageiro e saudoso Manoel Schwartz, David Fischel. E acabou. Muitas chances foram desperdiçadas, por causa dessa ausência de lideranças e de gente com perfil para comandar o clube.

Por exemplo: em 1996, o Banco Bozano, Simonsen ensaiou uma parceria que poderia resgatar o Flu da sarjeta. Chegaram a escolher Ricardo Gomes como uma espécie de manager. Mas, logo, o presidente do banco, Júlio Bozano, irritou-se com a “diretoria”, tirou o time de campo e anunciou que nunca mais se meteria com futebol ou com o Fluminense.

O Fundo Oceânica também foi uma boa ideia, mas caiu em mãos erradas, as de Álvaro Barcelos, uma das desgraças que se abateram sobre o clube. O clube caminhava para o fim.

Claro, estavam por lá Gil Carneiro de Mendonça e Álvaro Barcellos. Quando tudo parecia perdido e sem solução, alguns tricolores de estirpe se juntaram para tentar um resgate. Manoel Schwartz, Francisco Horta, David Fischel. Trouxeram a Unimed, o Banco FonteCindam do tricolor Luiz Antônio Gonçalves, que fazia um aporte mensal para pagar Parreira e outras despesas.

A ressurreição do Fluminense com a final da Libertadores de 2008, os dois títulos brasileiros, tudo isso era uma ilusão passageira, que a brisa primeira levou, como diria um poeta tricolor. As estruturas estavam, sempre estiveram, apodrecidas.

Reconheço o esforço da rapaziada da atual diretoria, mas falta-lhes competência, senioridade, vivência e humildade. Não têm sequer o traquejo para buscar a união do clube e para se comunicar com a mídia e com a torcida. Pedro Antônio foi chutado do clube. São agressivos e refratários a qualquer crítica.

Passamos todo o ano de 2017 ouvindo e lendo que o clube está quebrado, que temos capacidade financeira igual à do Atlético Goianiense, que nosso orçamento não comporta salários acima de 20 mil, que somos uns coitados. Somos pequenos.

Desculpem se sou repetitivo, e por isso nem vou falar em Samorim, por exemplo, como despesa inútil. Quero apenas lembrar que o campeão da Copa do Brasil de 2018 receberá mais de 40 milhões em prêmios. O dinheiro vai se multiplicando a cada fase, sem contar bilheterias, exposição da marca, valorização de “ativos voláteis” etc.

Alguém acha que poderemos, não digo ser campeões, mas pelo menos fazer uma boa campanha na Copa do Brasil ou na Sulamericana, e beliscar um bom dinheiro em prêmios? Ou seja, é um círculo vicioso, não ganhamos nada por falta de dinheiro, e não temos dinheiro porque não ganhamos nada.

O mais dramático deste momento, além da inadimplência desmoralizante, é que não temos a energia que tínhamos nos anos de chumbo para reerguer o clube, como fizemos na década de 90. Para completar nossa tragédia institucional, a oposição também é péssima. Ou seja, nem a renúncia do presidente nos salva.

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