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Vaca Profana (11/02/2017)

“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada”

Adoro Caetano. Nem sempre das opiniões, mas acho-o um gênio das composições. Considero geniais as suas letras, mesmo quando não entendo nada. Como é o caso de Vaca Profana, que ele inicia com os versos acima e mais adiante continua com esses abaixo:

“Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada”

Ouvi essa música na Nova Brasil FM, minha preferida aqui em São Paulo, enquanto caminhava no meu condomínio. A caminhada (uma hora diária, mas que nem sempre é tão diária assim) é o momento em que aproveito para reflexões mil sobre a vida. As coisas boas (“minhas risadas”) e as ruins (“minha lágrimas”). E não tenho como dissociar minha vida do Fluminense. Lágrimas e risadas são geradas por essa paixão. Minha vida e o Fluminense são coisas intrínsecas, indissociáveis. Não sou daqueles torcedores loucos que colocam seu time acima de tudo, prejudicam família, perdem emprego... Não. O Fluminense não é a minha vida toda. Mas é uma parte importante dela. Não tenho como ser totalmente feliz se o Fluminense estiver mal, assim como dias de infelicidade podem ser iluminados por uma bela vitória do Fluminense.

E na hora em que a Nova tocou Vaca Profana, eu estava justamente elocubrando sobre a tentativa sórdida de “espanholização” do futebol brasileiro. Um grande pesadelo de todos os tricolores. E hoje, sem patrocínio master, ainda não fechado com um fornecedor de material esportivo, vemos o Fluminense, mesmo depois de duas gestões consecutivas de estruturação financeira - embora tenha havido escorregões graves nos dois últimos anos – sofrendo sérias dificuldades para honrar suas despesas enquanto vê “o leite bom” jorrar “na cara dos caretas”, ou seja, dos rivais Flamengo e Corinthians. Os protegidos e beneficiados de sempre, dentro e fora de campo.

De fato, não entendo nada da letra dessa música: “Segue a "movida madrileña" / Também te mata Barcelona / Napoli, pino, pi, pau, punks / Picassos movem-se por Londres / Bahia, onipresentemente / Rio e belíssimo horizonte.” Mas é bonito, né? Ainda mais na voz de Gal. Mas quem é a Vaca Profana dessa minha "viagem"? Ou quem são?

Principalmente a emissora que transmite os jogos. Mas o banco estatal que patrocina vários dos clubes também faz uma segregação cruel, favorecendo os favorecidos de sempre. Tornando a competição injusta. Em última análise, destruindo o futebol brasileiro, tentando fazê-lo insosso e sonolento como o espanhol.

Vaca Profana, com sentido de "amamentar" os que dela dependem, mas não com justiça. Não com igualdade. Com privilégios e favorecimentos.

Na ocasião da implosão do Clube dos 13, ficou evidente o lucro monstruoso da emissora. “Dona de assombrosas tetas”, ela despejou seu “leite” principalmente “na cara dos caretas” Flamengo e Corinthians. É cruel tentar sanear um clube, tentar fazê-lo competitivo, com empresas – incluindo aí uma estatal, que também é minha e sua - jorrando dinheiro em dois dos rivais, que sequer precisam ter uma gestão organizada e responsável. O “leite” jorra de qualquer maneira.

Nesta última semana, surgiu a notícia de que o jogo do Botafogo obteve mais audiência que o do Corinthians, no mesmo horário. Parece óbvio que a diferença de audiência não é significativa a tal ponto de termos uma discrepância tão absurda na distribuição das quotas de tv. As maiores torcidas também assistem os jogos de seus rivais. Não há como justificar o privilégio. Ao que parece, há outros interesses envolvidos. E não me parecem interesses puros. O que ainda surpreenderia no Brasil de hoje?

Eu acho que o presidente do Fluminense, Pedro Abad, sua diretoria e todos os torcedores do Fluminense não devem descansar enquanto não acabarem com essa sabotagem ao futebol brasileiro.

No mais, agradeço a Caetano pela inspiração para esse texto. Ele não é tricolor, mas deveria ser. Talvez goste do tricolor errado, o Bahia, a julgar pela frase "quem não amou a elegância sutil de Bobô", da também fantástica "Reconvexo". Mas deixemos essa para uma outra "viagem".

Por hoje, fecho com o protesto contra o favorecimento arbitrário de poucos pela Vaca Profana platinada.

” Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas”

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