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Chlapci Z Xerém (23/08/2016)

Era agosto, mas era Europa. Não contava com aquele calor todo. Vestia uma jaqueta de couro. Aterrissei em Viena e peguei um ônibus para Bratislava. Algo em torno de 40 minutos. Ouvi dizer que é a menor distância do mundo entre duas capitais nacionais. Deve ser verdade. Em Bratislava já sentia o calor forte, mas mantive a jaqueta para não ter uma coisa a mais para carregar nas mãos, além da mala e da mochila. Na capital eslovaca consegui um táxi e – que bom! – o motorista falava inglês. Porém foi um pouco difícil, para ele, entender o meu destino.

- Samorin – eu pronunciei exatamente como se escreve em português.

A cara de surpresa dele me assustou um pouco. Tinha imaginado que Samorin, para Bratislava, fosse um pouco como Niterói para o Rio. Mas acabei descobrindo que o problema não era de conhecimento dele e sim meu, de pronúncia.

- Ah Xamorian! – Ele disse, com um sorriso, ao ver a palavra escrita na tela de meu celular.

Conversamos durante o trajeto. O sujeito se mostrou simpático e agradável. Inglês fluente devido a um período na Irlanda. Tive que retirar a jaqueta, tal era o calor, e ele me informou que a temperatura era de 30º C. Explicou sobre o estranho acento circunflexo invertido, que altera a pronúncia do “S” da palavra Samorin, acento esse que vou ficar devendo pois não o tenho em meu teclado. Sobre o motivo de minha visita, achou curiosa aquela relação entre um clube do Rio de Janeiro e outro de uma cidade pequena da Eslováquia. Tentei explicar da melhor forma que consegui, lembrando o que o Marcelo Teixeira tinha me falado, tempos atrás.

A chegada à pequena e simpática cidade me causou uma sensação curiosa. Eu estava ali, num país estrangeiro, de idioma ininteligível e, no entanto, iria visitar o Fluminense, a quase dez mil quilômetros das Laranjeiras.

Agora o Fluminense estava também na Europa e eu precisava ver isso de perto.

No mesmo dia da chegada, véspera de uma partida importante, fui conhecer as dependências do clube e assistir ao treino da equipe, vestido com a camisa tricolor (foto). Muito bem recebido por todos os profissionais que lá estavam, entre brasileiros – salve Celso e Wesley, da comissão técnica! -, eslovacos e de outras nacionalidades, como o americano Mike Keeney, “head coach” da equipe, além de alguns jogadores. Fizeram o que lhes foi possível para que eu me sentisse em casa. E conseguiram. Estava em casa, ainda mais depois de ver a bandeira e outros motivos tricolores expostos na sala de troféus da sede.

Sede, estádio e CT no mesmo terreno. Um local agradável, muito arborizado. No Brasil, poderia ser um clube country. Estádio pequeno, adequado à cidade de menos de 15 mil habitantes, mas funcional e de gramado bem cuidado, perfeito. Depois do treino, conversa agradável com vários deles, quando me orgulhei ao ouvir o nome do Fluminense tratado com a reverência e respeito que ele merece.

Jogadores originados de Xerém e eslovacos convivem em harmonia, com algumas diferenças culturais interessantes. Para começar, muitos dos eslovacos têm seus empregos, fora do futebol, razão pela qual os treinos só começam no final da tarde. Os eslovacos comem muita carne de porco e nos restaurantes ela é servida com enormes nacos de gordura. Os moleques de Xerém cortam e separam no prato essa porção pouco saudável. Os eslovacos ingerem tudo, sem dó.

Chegou o sábado, 6 de agosto, dia do jogo. O único que eu teria oportunidade de assistir durante minha curta visita. Estava um pouco tenso. O Fluminense Samorin é recém promovido para a segunda divisão local, mas com o apoio do Fluminense e o reforço dos moleques de Xerém, tem plenas condições de subir logo para a primeira. Porém, tanto o assistente Celso quanto o técnico Mike me disseram que o adversário, o Nitra, era outro grande favorito, dono de uma das melhores divisões de base da região. Eu não queria assistir a uma derrota no meu primeiro encontro com o braço tricolor na Europa e fiquei um pouco preocupado.

Mas era sem motivo.

Na tarde do jogo a arquibancada ficou repleta de torcedores. Alguns deles batucavam e gritavam o “Xamorian” por todo o tempo. Média de idade elevada a tal ponto que, aos 55 anos, me senti abaixo da média etária por ali.

O time entrou em campo com sua camisa branca em que se via tanto o escudo tradicional do clube quanto o do Fluminense. Rolou a bola e logo fiquei mais tranquilo. A habilidade dos chlapci (moleques) brasileiros e a força física dos eslovacos formam uma conjunção de respeito, e eles logo tomaram conta da partida. No meio do primeiro tempo, Lionel, argentino formado em Xerém, cortou um zagueiro na entrada da área e bateu no canto direito do goleiro. Flu 1 a 0. Vibração na arquibancada e mais “Xamorian, Xamorian”. No segundo tempo, Peu, também de Xerém, marcou num rebote da zaga e deu números finais à partida. Flu-Samorin 2x0 Nitra.

Depois disso, mais uma tarde-noite agradável na pequena cidade, agora aliviado pela vitória. Mas jogadores e comissão técnica, embora também felizes, continuavam o trabalho, planejando uma reunião para o dia seguinte, um domingo. O Fluminense da Europa nasce com muito trabalho e seriedade.

Escrevo do Rio, alguns dias depois. O Flu-Samorin venceu todas as partidas que disputou de lá para cá, tanto na liga eslovaca quanto na Copa. Como aconteceu no Brasil, onde o Fluminense já nasceu campeão, o Fluminense na Europa também inicia sua trajetória com vitórias. Nós somos a história no futebol brasileiro. E agora iniciamos uma nova história em solo eslovaco.

A torcida não cantou, mas bem que poderia ter cantado:

“Prídte sa. Chlapci z Xerém”

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