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Sentenças (20/10/2015)

Em uma sala fechada, extremamente quente, doze homens estavam confinados para decidir o destino de um rapaz. Decidiriam entre a vida e a morte dele. Teriam que chegar à unanimidade. Para a vida ou para a morte. Condenariam o garoto à cadeira elétrica ou o libertariam. Ao que parecia, o rapaz era culpado, então aquela reunião seria mera formalidade. Eles deveriam apenas sacramentar a decisão e acabar com aquela chateação.

O parágrafo acima descreve o enredo do filme “Doze homens e uma sentença”. Um filme de 1957 mas que ainda se mostra bem atual no que se refere a julgamentos precipitados, acusações apressadas e irresponsáveis. Como acontece com frequência comigo – em se tratando de filmes, músicas ou livros - fiz uma associação com o Fluminense. Mais especificamente com o sórdido episódio de quase dois anos atrás, quando o Fluminense foi “condenado” por milhões de brasileiros. Foi condenado simplesmente porque isso era o mais óbvio e o que dava menos trabalho.

E, convenhamos, a condenação do Fluminense interessava muito a uns e outros.

No filme, dirigido por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda, aquele era um grupo de jurados que, após o julgamento, foi reunido numa sala da qual só poderiam sair com a decisão tomada. O ventilador não funcionava e o calor era intenso. Eles suavam em bicas. Alguns dos homens tinham muita pressa de terminar logo aquela amolação. Condenar o rapaz à morte e poder voltar às suas rotinas. Um deles tinha ingressos para o beisebol. Queria sair dali o mais rapidamente possível. A importância do dia a dia de cada um parecia sobrepor-se à da vida do rapaz.

Em 2013 o Fluminense foi condenado pela mídia e pela opinião pública, exatamente como tinha acontecido em 1997. Naquela ocasião, como na de 2013, o vilão era outro. Mas a verdade às vezes é incômoda. É mais fácil condenar um clube cuja torcida não está entre as duas maiores. O Fluminense era o vilão perfeito. Nem réu primário ele era. Já tinha um histórico, ainda que insjusto. Para que pensar? Para que tanta chateação? Condene-se o Fluminense e voltemos ao dia a dia.

Condenemos o rapaz - pensava a maioria daqueles homens - e voltemos ao dia a dia. Voltemos ao beisebol, ao trabalho, às famílias. A culpa do réu era tão óbvia que foi uma surpresa para quase todos eles quando a primeira votação mostrou que não havia unanimidade. Um deles ousou votar “not guilty” em meio aos onze votos “guilty”. Olhares abismados, alguns indignados, voltaram-se para o autor daquele voto inusitado – justamente o do personagem de Fonda. Estaria ele louco? Mas não, ele não estava. Ele sequer tinha certeza se o rapaz era inocente. Apenas não havia evidências suficientes para condenar uma pessoa. Urgia dar ao rapaz o benefício da dúvida.

Em 2013 pouquíssimos integrantes da mídia quiseram dar ao Fluminense o benefício da dúvida. Era mais fácil condená-lo. Até porque era conveniente. Permitia longos discursos indignados que poderiam preencher o tempo e o espaço das dezenas de programas e sites esportivos sem incomodar aqueles que não devem ser incomodados.

Mas naquela sala, um dos doze homens decidiu que não havia provas suficientes para condenar o rapaz. Deu-lhe o benefício da dúvida. Impediu que a reunião terminasse rapidamente. Mas o simples fato de ele ter votado contra a condenação sumária foi aos poucos abrindo os olhos dos demais. O que parecia óbvio não era tão óbvio assim.

Há dois anos, também começou-se a descobrir que o que parecia óbvio e conveniente, não era tão óbvio assim. Primeiro veio à tona a incrível coincidência. O mesmo erro, embora seja raríssimo, foi cometido duas vezes em 24 horas. O segundo erro, no domingo, eliminou as consequências graves do erro de sábado. Conveniente.

No filme, a cada nova votação a tese do personagem de Fonda ganhava mais adeptos, já que o óbvio deixava de ser óbvio. Aos poucos, todos foram se convencendo de que as coisas não eram exatamente como antes lhes parecia evidente.

As semelhanças entre ficção e realidade param por aí. Até porque a realidade é no Brasil. Embora hoje ninguém mais veja a Portuguesa como coitadinha, muitos ainda veem o Fluminense como vilão. Não conseguem enxergar o outro personagem sórdido dessa história, até mesmo porque a imprensa finge ignorar a enorme coincidência. E assim, o que nos resta é a certeza da impunidade dos verdadeiros vilões.

Esse é o Brasil. Terra das falcatruas em todos os níveis. Não há surpresa. O futebol não fugiria à regra.

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