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A Rainha De Quase Tudo (14/05/2015)

"O rei de quase tudo" é um clássico da literatura infantil, escrito por Eliardo França em 1971. Muitos anos depois ele foi transformado em enredo e consequentemente em samba-enredo de uma pequena escola de samba de Niterói, a Bugres do Cubango. Um dia, em 1983, meu irmão apareceu lá em casa com o disco das escolas de Niterói. Graças a ele eu pude conhecer um dos mais belos sambas que já ouvi, e que trago na memória desde então. Infelizmente não saberei dizer quem foram os autores do samba. Sejam quem forem, estão de parabéns, pois o samba é muito bonito. Tratava-se de um rei que tinha quase tudo, mas nunca estava satisfeito.

“Trago hoje nessa passarela
Uma história tão bela
De muito tempo atrás
Era o rei de quase tudo.
Queria ter o mundo em sua mão.”

Eu sempre lembro desse samba quando o assunto é essa absurda distribuição das cotas de tv que a Rede Globo pretende impor aos clubes a partir de 2016. Vejam que hoje ela já é extremamente injusta e discriminatória, mas vai se tornar ultrajante, intolerável, a partir do ano que vem.

No futebol brasileiro, a Rede Globo quer ser “A rainha de quase tudo”. Ela quer determinar, arbitrariamente, sem critérios esportivos, quem será forte financeiramente, quem será médio e quem será fraco no cenário nacional. Pelas notícias que vemos, o Flamengo e o Corinthians, os dois clubes já exageradamente protegidos pela mídia, vão receber, cada um, quase o triplo do que receberá o Fluminense. São 110 milhões ao ano, de diferença. Isso é um acinte! Não há competição possível com uma arbitrariedade dessa! A “rainha de quase tudo” quer determinar os destinos do já combalido futebol brasileiro. Quer privilegiar alguns clubes em detrimento da maioria e o pior de tudo: quer fazer no Brasil o estrago que foi feito na Espanha. E vejam que a Espanha está se mobilizando para acabar com aquele abuso, que só prejudicou o futebol de lá. Aqui, estamos no caminho oposto.

“Queria ter a lua e o sol, os frutos e os pássaros e o arrebol
(...) as flores caíram prisioneiras. Prendeu estrelas, rios, cachoeiras”

O samba diz que "o povo inteiro chorou", mas aqui, na nossa realidade, chorar será pouco. Acho óbvio que o Fluminense tem que se insurgir contra essa barbaridade. Imagino que o primeiro passo seria formar um bloco com os demais clubes na mesma situação - como Internacional, Grêmio, Cruzeiro e Atlético-MG - e brigarem juntos, peitarem a emissora. Romperem o contrato, se for o caso. Procurarem as emissoras rivais. O que não se pode admitir é que a determinação de quem será forte e quem será fraco fique entregue aos caprichos de uma emissora de tv. É intolerável a criação forçada de tamanho abismo entre clubes que sempre tiveram tradição semelhante.

Na história de Eliardo França, o rei, após tantos malfeitos, se arrepende e devolve tudo ao seu lugar. Torçamos então para que a "rainha de quase tudo" também volte atrás nos seus malfeitos. Quem sabe a vida real imite a ficção? Assim poderemos ter uma divisão de cotas justa, baseada em critérios técnicos.

“O rei também entristeceu.
Como prender as belezas da vida?
De repente ele se arrependeu
E devolveu tudo ao seu lugar
Era rei de quase tudo, porém sentiu a paz
Tinha alegria. Não queria nada mais.”

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