Colunistas - Cezar Motta

A Torcida Tem Que Buscar De Volta O Pedro Antônio (16/10/2018)

Li e não acredito na sinceridade da carta de desistência de Pedro Antônio à candidatura a presidente do Fluminense nas eleições do próximo ano. É possível, sim, que ele não se candidate, mas a renúncia parece mais uma estratégia de risco, usada por lideranças autoritárias como forma de fortalecimento político.

Sim, Pedro Antônio é um milionário que se fez com o próprio trabalho, e não está acostumado a ouvir a palavra não, detesta ser contrariado e não tem paciência para o jogo político – principalmente o jogo político rasteiro, medíocre e de vaidades que atormenta e destrói o clube.

Se mudarmos o patamar da coisa para a grande política, veremos a renúncia ao longo da história, em várias situações. Concordo que é um exagero comparar a política rasteira do Fluminense com fatos históricos, mas talvez ajude a entender o episódio da tal carta.

Jânio Quadros, ao longo da carreira, protagonizou várias renúncias. Desistiu de ser candidato a governador de São Paulo, renunciou à candidatura presidencial para imprensar a UDN (principal partido que o apoiou à Presidência, mas de que nunca foi membro), sempre com sucesso absoluto.

Sempre impôs sua vontade e foi reconduzido às candidaturas, porque seus aliados não tinham alternativa melhor. Fracassou apenas quando tentou aplicar a estratégia já na cadeira de presidente da República. Esperava um levante popular, político e empresarial que o reconduzisse ao Planalto, em dois ou três meses.

Em poucos dias, porém, o governo Jânio Quadros era coisa do passado. Uma coisa era renunciar a uma candidatura (e se fortalecer em seguida), porque ali há uma expectativa clara de poder. Outra, muito diferente, é renunciar ao próprio poder. O vácuo logo começa a ser disputado por outras forças.

Jânio teria ficado impressionado com o prestígio popular quase absoluto de Fidel Castro, quando visitou Cuba ainda como candidato no Brasil, em 1960. Outra renúncia, muito mais dramática, foi a de Getúlio Vargas, em 1954. Poderia ter sobrevivido humilhado no exílio, ou até ser deposto e preso, o mais provável.

Mas preferiu renunciar à própria vida, e entrar para a história, como disse em sua carta testamento. No mesmo dia da madrugada em que se matou, seus adversários foram encurralados pela população enfurecida, os jornais adversários empastelados.

Mas, de volta à Rua Álvaro Chaves e sua pequenez política, a carta de Pedro Antônio, tosca, é um ato político, um manifesto de quem não desistiu – apenas realizou um movimento tático, populista e autoritário.

Cabe à torcida e aos seus apoiadores convencê-lo a voltar atrás, ainda que um pouco mais à frente, talvez em janeiro. Os tricolores que acreditam que ele possa ser a única esperança de salvar o Flu da tragédia deveriam unir-se e procurá-lo de alguma forma – seja com um manifesto público de torcidas organizadas, com faixas no Maracanã...

É o que ele certamente espera. Há os que o vejam como o único tricolor vivo e ativo capaz de mobilizar recursos, levar credibilidade à instituição e buscar objetivos maiores. Não é alguém acostumado a se meter em uma empreitada e fracassar. O CT é uma prova.

Nem com todo o dinheiro que circula no futebol essa diretoria seria capaz de levantar uma obra daquelas. Faltam competência, espírito empreendedor – eles não são de nada. Vamos sofrer de pequenez, mediocridade crônica e ameaça de falência até janeiro de 2020.

Pedro Antônio tem problemas, sim. Aparentemente, é um solitário na ação, autoritário, ruim de composição política. Turrão. Mas faz acontecer, quando se mete em alguma empreitada. Parte dos tricolores tomou implicância com ele pelo apoio à Flusócio na última eleição.

Ora, amigos tricolores, a vida e a política são dinâmicos. Acho uma bobagem crucificá-lo por isso. Fez na ocasião o que achou melhor, até porque estava envolvido até o pescoço com as obras do CT.

Acredito que seja um erro histórico da nossa torcida abrir mão de alguém com tanta capacidade gerencial, energia e disponibilidade para o cargo. Os tricolores deveriam procurá-lo, como ele gostaria. Ou será que vamos ter, a partir de 2020, o mesmo de sempre?

Cezar Motta - cezar_motta@uol.com.br


 
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