Colunistas - Casôba

A Copa De 2057 (24/06/2018)

Uma semana depois do final da Copa, após a euforia pelo nono título mundial do Brasil e uma certa decepção pelo comportamento de alguns de nossos torcedores e jogadores, decidi fazer uma análise do que vimos nessa Copa de 2057, na Ásia/Oceania, em especial no que se refere à arbitragem, que ganha importância cada vez maior, desde que deixou de se preocupar apenas com o que acontece no campo, mas em todo o entorno físico e digital das partidas.

Apesar da alegria da torcida, de alma lavada após críticos terem decretado a falência do futebol do país, que não conquistava um título desde 2030, fica a frustração pelo outro triste título que o Brasil também sempre disputa: o de pior comportamento de jogadores e torcedores. Diferente de alguns amigos, eu considerei justa a punição sofrida: o Brasil não terá nenhuma sede na Copa de 2060, quando ela retornará para as Américas. Além disso, nenhum ID brasileiro poderá obter ingressos para os jogos. A seleção terá que tentar o ambicionado “decacampeonato” sem seus torcedores nos estádios. Bem feito. Já está na hora de nos tornarmos um país civilizado.

Esportivamente, o título foi merecido. E estava na hora. A grande maioria dos torcedores do país, acima de 60 anos, ainda consegue se lembrar da conquista do “octa”, na memorável final contra a Nigéria, há 27 anos, na Índia, porém para os mais jovens aquilo parece pré-história. Eu estava farto de receber postagens com curiosidades de quando o Brasil ganhou pela última vez: a Copa ainda era disputada com intervalo de 4 anos, por apenas 48 seleções e os jogos eram disputados em poucos países, às vezes até em apenas um, por mais estranho que isso possa parecer nos dias de hoje. Além disso, havia situações inusitadas, como França, Alemanha, Portugal, Itália e Espanha disputando com times separados. Meu neto morre de rir quando eu mostro vídeos antigos, com o juiz sem capacete, impedimentos controlados visualmente e juízes auxiliares levantando bandeiras para dizer se a bola saiu ou não.

Apesar da bela festa de domingo passado no Nissan Stadium, Yokohama, a competição foi marcada por indisciplina, e uma infinidade de punições a torcedores, jornalistas, patrocinadoras – inclusive a nossa, infelizmente – e seus executivos. É difícil acreditar que, em plena segunda metade do século XXI ainda tenhamos atletas fazendo jogadas ofensivas ao adversário, como infelizmente foi o caso dos brasileiros Richard e Albert. Richard, vocês lembram, fez o abominável “lençol” sobre o zagueiro da Coréia, nas oitavas de final. Foi expulso da partida e teve seu ID suspenso por 6 meses. Portanto, durante esse período ele não poderá disputar nenhuma partida oficial, exceto nos poucos países não alinhados ao IDA, o acordo digital internacional. Vamos aqui dar o benefício da dúvida para Albert, que na fase de grupos fez a bola passar entre as pernas de um jogador vietnamita. Alberto garante que não foi sua intenção fazer aquela jogada e que não tinha qualquer intenção de ofender. Os vídeos não são esclarecedores e o jogador recebeu a pena mínima, ficando excluído apenas dos jogos restantes dessa Copa.

A torcida brasileira provocou sua própria ausência da próxima Copa e agora só poderemos ver as belas camisas verdes em 2063, na Europa e na África. Jason Oliveira, Chairman da patrocinadora brasileira, alegou que houve um excesso de euforia, provocado pela adesão da torcida japonesa, que não admitia a China novamente campeã, muito menos em final jogada no Japão. O estádio se transformou em enorme festa nipo-brasileira e, no último quarto, quando a vitória brasileira já estava consolidada, ouviram-se os detestáveis gritos de “olé”, em flagrante desrespeito esportivo. O julgamento eletrônico ocorreu ainda durante o final da partida, com as duas torcidas acusadas. A patrocinadora brasileira recorreu duas vezes, mas o veredito, dado ainda durante as comemorações, condenou a torcida brasileira, eliminando todos os IDs do país, exceto os dos profissionais, da próxima Copa. A patrocinadora japonesa alegou que seus torcedores não sabiam o significado de “olé” e apenas acompanharam os brasileiros. O jurado digital internacional, IDT, decidiu por uma punição mais leve: Yokohama não poderá ser sede na próxima Copa da Ásia/Oceania, em 2066.

Como já disse, eu queria tratar um pouco da arbitragem. Ela está melhorando, eu admito, mas acho que ainda há muito por fazer. Parece-me que o FAR, que o brasileiro gosta de chamar de juiz voador, já se tornou obsoleto. O capacete do árbitro terrestre já possui tecnologia para receber vídeos de todos os ângulos, inclusive superiores. Os impedimentos, gols e saídas de bola há muitos anos já são controlados eletronicamente. Pra que alguém voando? Um parceiro de redação argumenta que deveria ser eliminado o juiz de campo, mantendo apenas o voador. Pode ser, mas o voador teria que descer a todo momento para interagir com os jogadores? Sei lá. Isso precisa ser melhor debatido. O que eu vejo hoje é que o FAR tem se preocupado mais com o comportamento ético das torcidas do que com o que acontece em campo. Ora, para isso não precisa ficar sobrevoando o campo, atrapalhando a visão dos torcedores. Pode haver juízes de ética espalhados pelo estádio.

No jogo de domingo passado, a arbitragem foi muito importante, por questões técnicas, disciplinares e éticas. Foi um jogo nervoso. A China, em busca do segundo título, mostrou que não foi por acaso que eliminou a poderosa União Europeia, na semifinal, evitando o terceiro título consecutivo do fortíssimo time europeu. Atacou e se defendeu bem por todo o jogo. O término do segundo quarto em 3x3 mostra bem o equilíbrio da partida. O jogo, porém, deu trabalho para a arbitragem terrestre. Irritados com a torcida contrária dos locais, os jogadores chineses muitas vezes cometeram faltas mais violentas e, por vezes, também descuidaram da questão ética. O jogador Michael, por exemplo, tocou a mão na bola acidentalmente, mas não se acusou. Vídeos em diversos ângulos foram enviados para o capacete do árbitro de campo e o jogador foi exemplarmente punido. Foi expulso da partida e teve seu ID suspenso por uma semana. Achei a punição leve, mas é melhor que nada. De impunidade já basta a do americano Miguel Álvarez, flagrado cuspindo no chão e, mesmo com centenas de imagens comprovando a atitude vil, nada lhe aconteceu.

Destaco ainda um outro ponto positivo: o tradutor instantâneo do capacete foi muito melhorado de 2054 pra cá. Ele foi fundamental, na final de domingo, para que o árbitro grego pudesse entender os jogadores brasileiros e chineses. Para vocês verem que eu critico, mas também sei elogiar.

No sábado, decisão do terceiro lugar, a arbitragem ética tinha sido bastante contestada. Na vitória da União Europeia sobre os Estados Unidos, jornalistas acusaram a torcida americana de entoar cânticos homofóbicos contra o goleiro europeu, que é transexual. O árbitro inglês se defendeu afirmando que o tradutor só funciona para uma fala individual, não para um coro de torcedores. Com isso, ele alega que não identificou o que os americanos estavam cantando, por não entender espanhol. Ainda assim, foi afastado de partidas internacionais por tempo indeterminado e os IDs americanos também serão banidos da próxima Copa.

A imprensa também não escapou da chuva de punições. Durante a partida final, um jornalista argentino postou em um dos jornais instantâneos: “o time chinês precisa abrir o olho”. A frase foi considerada ofensiva às características físicas dos asiáticos e o jornalista sofreu julgamento eletrônico imediato. Foi condenado a um ano de banimento digital. Seus advogados, no entanto, embora concordem que a frase foi lamentável, consideram a pena muito rigorosa e trabalham para abrandá-la para banimento social.

Por falar em argentinos, se isso servir de consolo para os indisciplinados brasileiros, nessa área nossos vizinhos são ainda piores. Em uma Copa de tantas punições, a Argentina, que não ganha um título mundial há 71 anos, foi a campeã na indisciplina. As comemorações de gols excessivamente alegres nos jogos contra Mônaco e Albânia foram consideradas ofensivas aos jogadores e torcedores adversários, provocando a perda de três pontos na fase de grupos e a consequente eliminação precoce. O presidente argentino, em cadeia nacional, se disse envergonhado pelo comportamento de seus jogadores e afirmou que considerou justa a eliminação. Ao menos isso.

Vamos torcer para que os jogadores e torcedores aprendam a se comportar melhor nas próximas Copas.

Casôba - casoba2000@uol.com.br


 
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